Amiloidose AL sistêmica (cadeia leve lambda) com envolvimento cardíaco (amiloidose cardíaca), renal (síndrome nefrótica) e neurológico — Caso Residente
Apresentação Clínica
Paciente masculino, 65 anos, internado para investigação de síndrome nefrótica (proteinúria 6g/24h, albumina 2.0), ICC de fração de ejeção preservada (FEpEF) com parede espessada no ECO (SIV 15mm) sem HAS significativa, neuropatia periférica sensitiva ascendente e macroglossia. PA 100x65, FC 75, FR 18, SpO2 96%, T 36.5°C, Glasgow 15. Macroglossia, púrpura periorbital bilateral (olhos de guaxinim), hepatomegalia 5cm, edema 3+/4+. Labs: BNP 850, proteinúria 6g, albumina 2.0, creatinina 2.2, cadeia leve livre kappa 12 mg/L, lambda 350 mg/L (razão muito alterada), beta-2-microglobulina 5.5. Eletroforese com pequeno pico monoclonal. ECG com baixa voltagem paradoxal apesar da hipertrofia ao ECO. Biópsia gordura abdominal: depósitos amiloides (vermelho Congo +, birrefringência verde-maçã). Tipagem: amiloide AL (lambda).
Síntese do Caso
Paciente masculino, 65 anos, apresentando quadro clássico e avançado de disfunção multiorgânica (cardíaca, renal, neurológica e tecidos moles) caracterizado por IC FEpEF, síndrome nefrótica, neuropatia periférica, macroglossia e púrpura periorbital. A biópsia de gordura abdominal confirmou o diagnóstico de depósito amiloide com tipagem AL (cadeia leve lambda), corroborado pela relação kappa/lambda severamente alterada e pico monoclonal.
Hipótese Diagnóstica Principal
Amiloidose Sistêmica Primária (Amiloidose AL) — Confiança: 100%
Diagnósticos Diferenciais
Como o diagnóstico principal já está confirmado por biópsia, os diferenciais focam em descartar sobreposições ou condições que alteram o prognóstico imediato:
| # | Diagnóstico | Confiança | Achados que Favorecem | Achados que Afastam |
|---|---|---|---|---|
| 1 | Mieloma Múltiplo (MM) Concomitante | 30% | Pico monoclonal, alteração de cadeias leves, lesão renal (Cr 2.2). | Ausência (até o momento) de hipercalcemia, anemia severa ou lesões ósseas líticas relatadas. |
| 2 | Amiloidose ATTR (Transtirretina) | 0% | IC FEpEF com hipertrofia de VE, neuropatia periférica. | Tipagem tecidual confirmou AL; macroglossia e púrpura são exclusivas da AL. |
| 3 | Doença de Depósito de Cadeia Leve (DDCL) | 0% | Proteinúria nefrótica, disfunção renal, pico monoclonal. | DDCL não cora com Vermelho Congo (não forma fibrilas amiloides). |
Não Esqueça: A exclusão formal de Mieloma Múltiplo (presença de >10% de plasmócitos clonais na medula óssea + critérios CRAB) é mandatória, pois a Amiloidose AL é uma discrasia de plasmócitos que pode coexistir com o MM franco, alterando a agressividade do tratamento.
Confirmação Diagnóstica
Critérios Clínicos
O diagnóstico de Amiloidose AL requer 4 critérios (todos preenchidos neste caso):
1. Síndrome clínica de acometimento orgânico (Coração, Rim, Nervos).
2. Demonstração de amiloide em tecido (Biópsia de gordura +).
3. Prova de que o amiloide é AL (Tipagem lambda +).
4. Evidência de discrasia de plasmócitos (Cadeia leve lambda 350, pico monoclonal).
Exames Complementares (por ordem de prioridade)
Imediatos (beira-leito):
Laboratoriais e Imagem (Pedido TUSS Gerado):
1. Troponina I de Alta Sensibilidade (TUSS 40316149): Mandatório para fechar o Estadiamento da Mayo Clinic.
2. Cálcio Iônico (TUSS 40301389) e Hemograma Completo (TUSS 40304361): Para exclusão de critérios CRAB (Mieloma Múltiplo).
3. Biópsia de Medula Óssea com Imuno-histoquímica (TUSS 40103137): Padrão-ouro para quantificar a carga de plasmócitos clonais.
4. Ressonância Magnética do Coração (TUSS 41101034): Avaliação do realce tardio subendocárdico global (padrão clássico) e quantificação do volume extracelular.
Conduta Terapêutica
Medidas Imediatas (Tempo 0)
Medicações Iniciais (Manejo de Sintomas - Primeiros 60 min)
O foco inicial na emergência/enfermaria é o manejo da congestão (edema 3+/4+, hepatomegalia) sem causar choque cardiogênico.
| Medicação | Dose | Via | Preparo/Diluição | Tempo | Observação |
|---|---|---|---|---|---|
| Furosemida (Lasix®) | 20 a 40 mg | IV | Ampola 20mg/2mL. Sem diluição. | Em 2 min | Iniciar com dose baixa devido à PA limítrofe (100x65). Avaliar resposta diurética em 2h. |
| Heparina de Baixo Peso Molecular (Enoxaparina) | 40 mg | SC | Seringa preenchida. | 1x/dia | Profilaxia de TVP mandatória. Risco trombótico altíssimo (Síndrome Nefrótica grave com Albumina 2.0). *Ajustar para 20mg se ClCr < 30.* |
Estratégia Definitiva (Terapia Modificadora de Doença)
A terapia definitiva deve ser conduzida pela Hematologia/Oncologia com urgência. O objetivo é erradicar o clone plasmocitário que produz as cadeias leves tóxicas.
Avaliação de Resposta
Alertas Críticos
1. Bloqueadores de Canal de Cálcio (Verapamil, Diltiazem): Ligam-se avidamente às fibrilas amiloides, causando toxicidade severa, choque cardiogênico e bloqueio AV avançado.
2. Betabloqueadores: Pacientes dependem de frequências cardíacas mais altas (taquicardia compensatória) para manter o débito cardíaco, já que o volume sistólico é fixo e baixo. O uso pode precipitar choque.
3. Digoxina: Risco altíssimo de toxicidade por ligação às fibrilas.
4. IECA/BRA: Usar com extrema cautela ou evitar. A neuropatia autonômica associada impede a vasoconstrição compensatória, e o uso de IECA pode causar hipotensão profunda e síncope.
Disposição e Acompanhamento
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*⚠️ AVISO: Esta análise é baseada em diretrizes gerais (EBM), protocolos de Onco-Hematologia (NCCN/Mayo Clinic) e Cardiologia (ESC/AHA para Amiloidose), e não substitui o julgamento clínico presencial.*
Diagnostico de Referencia (Gold Standard)
Amiloidose AL sistêmica (cadeia leve lambda) com envolvimento cardíaco (amiloidose cardíaca), renal (síndrome nefrótica) e neurológico
- Amiloidose AA
- Amiloidose ATTR
- Mieloma múltiplo
- Doença de depósito de cadeia leve