Cetoacidose diabética grave (CAD) em DM1 — Caso Estudante
Apresentação Clínica
Homem 32 anos, DM1 desde os 12 anos, parou de usar insulina há 5 dias por falta de acesso. Dá entrada com náuseas, vômitos, dor abdominal difusa e dispneia. PA 90x55 mmHg, FC 122bpm, FR 32irpm (Kussmaul), SpO2 98%, T 36,5°C, Glasgow 14. Hálito cetônico. Labs: glicemia 520 mg/dL, pH 7,08, pCO2 15 mmHg, HCO3 5 mmol/L, BE -22, Na+ 130 mEq/L, K+ 5,8 mEq/L, Cl- 98 mEq/L, ureia 55 mg/dL, Cr 1,6 mg/dL. Ânion gap: 27 mEq/L. Cetonúria 4+, beta-hidroxibutirato sérico 8,5 mmol/L. Lactato 2,2 mmol/L. Osmolaridade sérica calculada 310 mOsm/kg. Solicita protocolo de CAD grave e monitoração laboratorial horária.
Síntese do Caso
Homem de 32 anos, portador de DM1 com má adesão (suspensão de insulina há 5 dias), apresentando quadro de choque distributivo/hipovolêmico (PA 90x55, FC 122), respiração de Kussmaul e rebaixamento leve do sensório (Glasgow 14). Laboratório confirma acidose metabólica com ânion gap elevado (pH 7,08; AG 27), hiperglicemia severa (520 mg/dL) e cetonemia/cetonúria maciças.
Hipótese Diagnóstica Principal
Cetoacidose Diabética (CAD) Grave — Confiança: 100%
Diagnósticos Diferenciais
| # | Diagnóstico | Confiança | Achados que Favorecem | Achados que Afastam |
|---|---|---|---|---|
| 1 | Estado Hiperosmolar (EHH) | 5% | Glicemia muito elevada, desidratação | Osmolaridade < 320, acidose grave, cetonemia maciça |
| 2 | Abdome Agudo | 15% | Dor abdominal difusa, náuseas, vômitos | Dor abdominal é sintoma clássico da CAD grave e costuma resolver com a correção da acidose |
| 3 | Acidose Lática (Sepse) | 10% | Hipotensão, taquicardia, taquipneia | Lactato apenas levemente tocado (2,2), foco infeccioso não evidente |
Não Esqueça: A dor abdominal deve desaparecer com a resolução da cetoacidose. Se a dor persistir após o fechamento do ânion gap e correção do pH, investigar ativamente abdome agudo (ex: apendicite, pancreatite que podem ter sido o gatilho inicial).
Conduta Terapêutica (Protocolo ADA/SBD)
Medidas Imediatas (Tempo 0)
Medicações Iniciais (Primeiros 10-60 min)
A base do tratamento segue a ordem de prioridade: 1º Volume → 2º Potássio → 3º Insulina.
| Medicação | Dose | Via | Preparo/Diluição | Tempo | Observação |
|---|---|---|---|---|---|
| 1. Cloreto de Sódio 0,9% | 1000 a 1500 mL | IV | Direto na veia | Correr em 1 hora | Ressuscitação volêmica inicial obrigatória. |
| 2. Cloreto de Potássio (KCl) | NÃO FAZER AGORA | - | - | - | K+ inicial = 5,8 mEq/L. Se K+ > 5,2, postergar reposição. |
| 3. Insulina Regular | 0,1 U/kg (Bolus) | IV | Sem diluição (Seringa de insulina) | Imediato | Fazer APÓS garantir que K+ > 3,3. |
| 4. Insulina Regular | 0,1 U/kg/h (BIC) | IV | 100 U de Insulina Regular em 100 mL SF 0,9% (1 U/mL) | Contínuo | Iniciar imediatamente após o bolus. |
*Nota sobre Bicarbonato:* NÃO ADMINISTRAR. O pH é 7,08. O protocolo indica bicarbonato apenas se pH < 6,90. A administração inadvertida piora a hipocalemia e retarda a depuração de cetonas.
Estratégia Definitiva (Horas Seguintes)
1. Manejo de Fluidos (Após a 1ª hora):
2. Manejo do Potássio (A partir da 2ª hora):
3. Transição com Glicose:
Avaliação de Resposta e Monitorização Horária
Monitorização Laboratorial:
Critérios de Resolução da CAD (Sucesso):
Glicemia < 200 mg/dL E pelo menos DOIS dos seguintes:
1. Ânion Gap ≤ 12 mEq/L
2. Bicarbonato sérico ≥ 15 mEq/L
3. pH venoso > 7,30
Critérios para Transição (Insulina IV para SC):
Alertas Críticos
Disposição e Acompanhamento
*⚠️ AVISO: Esta análise é baseada em diretrizes gerais (EBM - ADA 2023 / SBD) e não substitui o julgamento clínico presencial.*
Diagnostico de Referencia (Gold Standard)
Cetoacidose diabética grave (CAD) em DM1
- Estado hiperosmolar hiperglicêmico
- Acidose lática
- Cetoacidose alcoólica
- Intoxicação por metanol