Descolamento prematuro de placenta (DPP) grau III — Caso Residente
Apresentação Clínica
Gestante 35 anos, G4P3A0, IG 36 semanas, chega à emergência com dor abdominal súbita e intensa, sangramento vaginal escuro e hipertonia uterina. PA 90x60 mmHg, FC 128bpm, FR 26irpm, SpO2 94%, Glasgow 14. Abdome em tábua, útero lenhoso. BCF inaudível ao sonar. Toque: colo 3cm, bolsa tensa com líquido sanguinolento. Hb 7,8 g/dL, plaquetas 95.000/mm³, fibrinogênio 120 mg/dL, TP 18s, TTPa 42s. Relata uso de cocaína há 3 horas.
Síntese do Caso
Gestante de 36 semanas, usuária recente de cocaína, apresentando quadro clássico de abdome agudo hemorrágico obstétrico com choque hipovolêmico (PA 90x60, FC 128), hipertonia uterina ("útero lenhoso") e óbito fetal. Os exames laboratoriais evidenciam anemia aguda e Coagulação Intravascular Disseminada (CIVD) instalada (plaquetopenia, hipofibrinogenemia e alargamento de TP/TTPa).
Hipótese Diagnóstica Principal
Descolamento Prematuro da Placenta (DPP) Grau III (com óbito fetal) complicado com CIVD — Confiança: 99%
Diagnósticos Diferenciais
Ordenados do mais letal/urgente ao menos grave:
| # | Diagnóstico | Confiança | Achados que Favorecem | Achados que Afastam |
|---|---|---|---|---|
| 1 | Ruptura Uterina | 10% | Choque, dor súbita, óbito fetal | Útero lenhoso/hipertonia (na ruptura há cessação das contrações e perda da apresentação fetal) |
| 2 | Placenta Prévia | 5% | Sangramento no 3º trimestre | Sangramento escuro com dor e hipertonia (placenta prévia cursa com sangramento vermelho vivo e indolor) |
| 3 | Vasa Prévia | 1% | Sangramento vaginal, óbito fetal | Sangramento é de origem fetal, indolor, sem hipertonia uterina ou CIVD materna |
Não Esqueça: A presença de Útero de Couvelaire (apoplexia uteroplacentária) é altamente provável neste cenário, o que predispõe a atonia uterina grave e hemorragia pós-parto refratária após a extração fetal.
Confirmação Diagnóstica
Critérios Clínicos
Exames Complementares (Controle Evolutivo)
Imediatos (beira-leito): Gasometria arterial com lactato, tipagem sanguínea (ABO/Rh) e prova cruzada, tromboelastograma (ROTEM/TEG) se disponível.
Laboratoriais: O painel já colhido confirma CIVD. Será necessário controle seriado a cada 1-2 horas durante a ressuscitação.
Conduta Terapêutica
Medidas Imediatas (Tempo 0)
Medicações Iniciais (Primeiros 10-30 min)
| Medicação | Dose | Via | Preparo/Diluição | Tempo | Observação |
|---|---|---|---|---|---|
| Ácido Tranexâmico (Transamin®) | 1 g (4 ampolas de 250mg/5mL) | IV | Diluir em 100 mL de SF 0,9% | Infundir em 10 min | Administrar o mais rápido possível (ideal < 3h do início do sangramento). |
| Cristaloides (Ringer Lactato) | 500 - 1000 mL | IV | Direto | Bolus rápido | Não exceder 1-2L para evitar hemodiluição e piora da CIVD. Priorizar sangue. |
| Crioprecipitado | 10 a 15 Unidades | IV | Direto | Correr rápido | Fibrinogênio atual é 120 mg/dL (Meta na gestante com hemorragia é > 150-200 mg/dL). |
| Plasma Fresco Congelado (PFC) | 15 mL/kg | IV | Direto | Correr rápido | Indicado pelo alargamento de TP/TTPa. |
Estratégia Definitiva
1. Ocitocina (Syntocinon® amp 5 UI/mL): 5 UI IV lento (em 3 min) + 20 a 40 UI diluídos em 500 mL de SF 0,9% a 250 mL/h.
2. Misoprostol (Prostokos® comp 200 mcg): 800 mcg via Retal (4 comprimidos). Evitar via vaginal devido ao sangramento.
3. *Contraindicação:* Metilergometrina (Methergin®) deve ser evitada devido ao uso recente de cocaína (risco de crise hipertensiva severa e vasoespasmo coronariano por sinergismo adrenérgico/ergotamínico).
Avaliação de Resposta
Alertas Críticos
Disposição e Acompanhamento
*⚠️ AVISO: Esta análise é baseada em diretrizes gerais (EBM) e não substitui o julgamento clínico presencial.*
Diagnostico de Referencia (Gold Standard)
Descolamento prematuro de placenta (DPP) grau III
- Rotura uterina
- Placenta prévia com sangramento
- Coagulopatia de consumo