Doença de Fabry com cardiomiopatia hipertrófica de depósito (Gb3) — T1 nativo baixo diferencia de amiloidose (T1 alto), PR curto sem pré-excitação por depósito no nó AV — iniciar TRE ou Migalastat — Caso Especialista
Apresentação Clínica
Paciente masculino, 28 anos, com história de dor em queimação em mãos e pés desde os 10 anos (diagnosticado como dor de crescimento, depois fibromialgia), hipoidrose com intolerância ao calor, e lesões cutâneas avermelhadas puntiformes em região periumbilical e escrotal (angioqueratomas). Encaminhado ao cardiologista por dor torácica em exercício e ECG alterado em check-up. PA 130x80, FC 65, FR 16, SpO2 99%, T 36.5°C, Glasgow 15. Angioqueratomas, córnea verticillata ao exame oftalmológico. ECG: ritmo sinusal, PR curto 100ms (sem delta wave — pseudopré-excitação por depósito), HVE acentuada (critérios de voltagem), inversão de T em V4-V6 e laterais. ECO: HVE concêntrica severa (SIV 18mm, PP 17mm), FEVE 60%, aparência do miocárdio sugestiva de doença de depósito (endocárdio brilhante). RNM cardíaca: HVE concêntrica, T1 mapping nativo REDUZIDO (<900ms — patognomônico de Fabry, diferente de amiloidose onde é elevado), realce tardio em parede ínfero-lateral basal. Alfa-galactosidase A leucocitária: 0.5 nmol/h/mg (muito baixa). Lyso-Gb3: 85 nmol/L (elevado). Genética GLA: mutação patogênica.
Síntese do Caso
Paciente masculino, 28 anos, com quadro clássico e multissistêmico de doença de depósito lisossômico (acroparestesias, hipoidrose, angioqueratomas, córnea verticillata) evoluindo com angina aos esforços. Apresenta achados cardiológicos patognomônicos: PR curto sem onda delta, HVE concêntrica severa com T1 mapping nativo reduzido e realce tardio ínfero-lateral basal. O diagnóstico já se encontra confirmado laboratorial e geneticamente (atividade de alfa-galactosidase A indetectável, Lyso-Gb3 elevado e mutação no gene *GLA*).
Hipótese Diagnóstica Principal
Doença de Fabry (Cardiomiopatia de Fabry) — Confiança: 100%
Diagnósticos Diferenciais
Embora o diagnóstico esteja confirmado, no raciocínio inicial de HVE severa, os diferenciais (Rule Out) seriam:
| # | Diagnóstico | Confiança | Achados que Favorecem | Achados que Afastam |
|---|---|---|---|---|
| 1 | Amiloidose Cardíaca | 0% | HVE severa, pseudoinfarto no ECG, sintomas sistêmicos. | T1 mapping elevado, ausência de realce subendocárdico difuso, idade jovem. |
| 2 | Cardiomiopatia Hipertrófica (CMH) | 0% | HVE severa, angina aos esforços, alterações de repolarização. | Envolvimento multissistêmico (pele, olhos, suor), T1 mapping reduzido. |
| 3 | Doença de Danon | 0% | HVE extrema em jovens, padrão de pré-excitação no ECG. | Ausência de onda delta real, ausência de miopatia esquelética grave/retardo mental. |
Não Esqueça: Na Doença de Fabry, a angina frequentemente é microvascular (disfunção endotelial por depósito de Gb3 nas células endoteliais), podendo ocorrer com coronárias epicárdicas normais.
Confirmação Diagnóstica e Estadiamento
O diagnóstico base está fechado. O foco agora é o estadiamento de órgão-alvo (coração, rins e cérebro).
Exames Complementares (Estadiamento Imediato)
Laboratoriais:
Cardiológicos e Imagem:
Conduta Terapêutica
Medidas Imediatas (Tempo 0)
Medicações Iniciais (Controle Sintomático e Cardioproteção)
| Medicação | Dose | Via | Preparo/Apresentação | Tempo | Observação |
|---|---|---|---|---|---|
| Metoprolol (Succinato) (Selozok®) | 25-50 mg 1x/dia | VO | Comp. 25mg, 50mg, 100mg | Contínuo | 1ª linha para angina microvascular e controle de gradiente VE. *Atenção ao PR curto e risco de BAV*. |
| Pregabalina (Lyrica®) | 75 mg 2x/dia | VO | Cáps. 75mg, 150mg | Contínuo | 1ª linha para dor neuropática (acroparestesias). Titular até 150mg 2x/dia se necessário. |
| Enalapril (Renitec®) | 5-10 mg 1x/dia | VO | Comp. 5mg, 10mg, 20mg | Contínuo | Indicado se houver microalbuminúria/proteinúria para nefroproteção e remodelamento reverso. |
Estratégia Definitiva (Terapia Modificadora de Doença)
O paciente tem indicação absoluta e imediata de terapia específica devido ao acometimento de órgão-alvo (HVE e sintomas clássicos).
*Deve ser conduzido em centro de referência para Doenças Raras.*
Opção 1: Terapia de Reposição Enzimática (TRE) - 1ª Linha Histórica
Opção 2: Terapia Chaperona Farmacológica (Se mutação for responsiva/amenable)
Avaliação de Resposta
Alertas Críticos
Disposição e Acompanhamento
*⚠️ AVISO: Esta análise é baseada em diretrizes gerais (EBM) e não substitui o julgamento clínico presencial.*
Diagnostico de Referencia (Gold Standard)
Doença de Fabry com cardiomiopatia hipertrófica de depósito (Gb3) — T1 nativo baixo diferencia de amiloidose (T1 alto), PR curto sem pré-excitação por depósito no nó AV — iniciar TRE ou Migalastat
- CMH sarcomérica
- Amiloidose cardíaca
- Doença de Danon (LAMP2)
- HVE hipertensiva