Fratura em burst de L1 com síndrome do cone medular + fraturas bilaterais de calcâneo (Don Juan fracture) — Caso Especialista
Apresentação Clínica
Homem 30 anos, queda de parapente de aproximadamente 15 metros, aterrissou em pé. Glasgow 15, PA 130x80 mmHg, FC 95bpm. Dor intensa em calcanhares bilateralmente e em coluna lombar. Fraturas de calcâneo bilaterais em TC (Sanders tipo III bilateral). RX coluna: fratura em burst de L1 com perda de 50% da altura do corpo vertebral, recuo de muro posterior 30%, ângulo de cifose 25°. TC coluna: fragmento retropulsado comprimindo cone medular. Exame neurológico: força 4/5 em dorsiflexão bilateral dos pés, hipoestesia em sela, reflexo anal ausente. Bexigoma palpável. Solicita classificação TLICS, indicação cirúrgica e prognóstico da síndrome do cone medular.
Este é um caso clássico de trauma axial de alta energia (Síndrome de Don Juan), resultando em fraturas de calcâneo associadas a fratura toracolombar. O paciente apresenta um quadro agudo de Síndrome do Cone Medular secundário à fratura em explosão (burst) de L1.
Abaixo, respondo diretamente às suas solicitações (TLICS, indicação e prognóstico), seguidas do plano de ação sequencial para a beira do leito.
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1. Classificação TLICS (Thoracolumbar Injury Classification and Severity Score)
O escore TLICS define a conduta baseada em três eixos. Para este paciente:
1. Morfologia da Lesão: Fratura em explosão (*Burst*) = 2 pontos
2. Status Neurológico: Lesão medular incompleta / Síndrome do Cone Medular = 3 pontos
3. Complexo Ligamentar Posterior (CLP): A cifose de 25° e a perda de 50% da altura sugerem fortemente lesão do CLP. Mesmo sem RM, radiograficamente é classificado como suspeito/indeterminado (2 pontos) ou roto (3 pontos). Vamos considerar suspeito = 2 pontos
Pontuação Total TLICS = 7 pontos
*(Nota: Qualquer pontuação $\ge$ 5 indica tratamento cirúrgico).*
2. Indicação Cirúrgica
A indicação cirúrgica é ABSOLUTA e de URGÊNCIA.
Os critérios de indicação presentes neste caso são:
* Neurológico: Déficit neurológico agudo e progressivo (Síndrome do Cone Medular com bexigoma e anestesia em sela). A descompressão precoce (< 24 horas) é o fator modificável mais importante para a recuperação.
* Mecânico: Instabilidade biomecânica grave. Critérios de instabilidade de White & Panjabi presentes: cifose > 20° (tem 25°), perda de altura do corpo vertebral > 50% e retropulsão de fragmento > 30% com comprometimento do canal.
3. Prognóstico da Síndrome do Cone Medular
O cone medular (geralmente situado entre T12-L2) contém os segmentos medulares sacrais e as raízes lombares descendentes. A lesão apresenta um quadro misto de neurônio motor superior e inferior.
* Recuperação Motora (Membros Inferiores): O prognóstico para as raízes lombares (força de dorsiflexão L4/L5) é razoável a bom se a descompressão for rápida, pois as raízes da cauda equina adjacentes têm maior resiliência à isquemia que a medula em si.
* Recuperação Esfincteriana (Bexiga/Intestino): O prognóstico é reservado a ruim. O controle esfincteriano e a função sexual (raízes S2-S4) dependem do cone medular (SNC), que tem baixíssima capacidade de regeneração. A persistência de bexiga neurogênica (arreflexa inicialmente, podendo evoluir para hiperreflexa) é uma sequela comum.
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Conduta Terapêutica Sequencial
Medidas Imediatas (Tempo 0)
* Restrição de Movimento da Coluna (RMC): Manter decúbito dorsal em prancha rígida (apenas para transporte) ou colchão firme. Rolamento em bloco estrito.
* Descompressão Vesical: Passagem IMEDIATA de Sonda Vesical de Demora (SVD). O bexigoma agudo causa distensão excessiva do músculo detrusor, o que pode piorar o prognóstico de recuperação vesical a longo prazo.
* Preparo Pré-operatório: Jejum, tipagem sanguínea, coagulograma, reserva de concentrado de hemácias (cirurgias de coluna podem sangrar significativamente).
* Avaliação Ortopédica: Elevação dos membros inferiores e imobilização suropodálica provisória (talas) para os calcâneos, com crioterapia para controle do edema (prevenção de flictenas e síndrome compartimental do pé).
Medicações Iniciais (Primeiros 10-60 min)
| Medicação | Dose | Via | Preparo/Diluição | Tempo | Observação |
|---|---|---|---|---|---|
| Fentanil | 1-2 mcg/kg | IV | Puro (Ampola 50mcg/mL) | Bolus lento | Analgesia imediata para dor intensa. |
| Ondansetrona | 4-8 mg | IV | Puro (Ampola 2mg/mL) | Bolus | Prevenção de náuseas/vômitos induzidos por opioides. |
| Dipirona | 1g | IV | Diluir em 10mL AD | Correr em 3 min | Analgesia adjuvante (poupador de opioide). |
*⚠️ ALERTA SOBRE CORTICOIDES (Metilprednisolona): De acordo com as diretrizes atuais do ATLS (11ª ed) e da AANS/CNS (American Association of Neurological Surgeons), o uso de altas doses de metilprednisolona (Protocolo NASCIS) NÃO é mais recomendado de rotina para trauma raquimedular agudo devido ao alto risco de complicações (sepse, pneumonia, sangramento TGI) sem benefício motor comprovado a longo prazo. A decisão de uso deve ser estritamente institucional e discutida com a equipe de neurocirurgia.*
Estratégia Definitiva
1. Neurocirurgia / Ortopedia de Coluna (Prioridade 1):
* Procedimento: Laminectomia descompressiva posterior + Artrodese com fixação por parafusos pediculares (geralmente 2 níveis acima e 2 abaixo da lesão, ex: T11-L3).
* Janela Terapêutica: Idealmente < 24 horas do trauma para maximizar a chance de recuperação neurológica.
2. Ortopedia (Prioridade 2):
* Procedimento: Redução Aberta e Fixação Interna (RAFI) dos calcâneos (Sanders III).
* Timing: Geralmente postergado (7 a 14 dias) até a melhora do edema de partes moles e o aparecimento do "sinal da ruga" (wrinkle sign), para evitar deiscência de ferida e necrose de pele.
Avaliação de Resposta e Monitorização
* Alvo Hemodinâmico: Manter PAM > 85-90 mmHg nos primeiros 7 dias para garantir a perfusão medular (evitar isquemia secundária do cone). Se necessário, iniciar vasopressor (Noradrenalina).
* Prevenção de TVP/TEP: Iniciar profilaxia mecânica (compressão pneumática intermitente) imediatamente. Profilaxia química (Enoxaparina 40mg SC/dia) deve ser iniciada 24-48h após a cirurgia da coluna, desde que não haja sangramento ativo ou hematoma epidural em expansão.
*⚠️ AVISO: Esta análise é baseada em diretrizes gerais (EBM) e não substitui o julgamento clínico presencial.*
Diagnostico de Referencia (Gold Standard)
Fratura em burst de L1 com síndrome do cone medular + fraturas bilaterais de calcâneo (Don Juan fracture)
- Síndrome da cauda equina
- Fratura de L1 estável sem déficit
- Fratura patológica