Hemocromatose hereditária (HFE C282Y homozigoto) com cirrose, diabetes e artropatia — Caso Especialista
Apresentação Clínica
Mulher 55 anos, cirrose 'criptogênica' diagnosticada há 2 anos, artropatia de 2a e 3a metacarpofalangianas bilateral, DM2 de difícil controle (HbA1c 9,5%), hiperpigmentação cutânea difusa ('bronzeamento'), hipogonadismo hipogonadotrófico. PA 120x78 mmHg, FC 72bpm. Labs: ferritina 2.800 ng/mL, ferro sérico 280 mcg/dL, TIBC 320 mcg/dL, saturação de transferrina 88% (VR < 45%). TGO 78 U/L, TGP 65 U/L. RNM hepática com protocolo de ferro: sinal de queda em T2*, ferro hepático estimado 320 mcmol/g (VR < 36). Genética HFE: homozigose C282Y/C282Y. Solicita diagnóstico, protocolo de flebotomia e rastreamento de CHC.
Síntese do Caso
Mulher, 55 anos, apresentando a clássica "tríade bronzeada" (cirrose, diabetes mellitus de difícil controle e hiperpigmentação cutânea), associada a artropatia típica (2ª e 3ª metacarpofalangianas) e hipogonadismo. Laboratório e imagem evidenciam sobrecarga de ferro severa (Ferritina 2.800, Sat. Transferrina 88%, RNM com 320 mcmol/g). O painel genético confirma mutação C282Y em homozigose no gene HFE.
Hipótese Diagnóstica Principal
Hemocromatose Hereditária (HH) Tipo 1 (Relacionada ao HFE) com lesão de órgão-alvo — Confiança: 100%
Diagnósticos Diferenciais
Neste caso, o diagnóstico já está selado pela genética, mas em fases iniciais de investigação, o método *Rule Out* incluiria:
| # | Diagnóstico | Confiança | Achados que Favorecem | Achados que Afastam |
|---|---|---|---|---|
| 1 | Hemossiderose Transfusional | 0% | Ferritina e Sat. Transferrina elevadas | Ausência de história transfusional; Genética HFE positiva |
| 2 | Doença Hepática Gordurosa (MASLD) | 0% | DM2, elevação de transaminases, ferritina alta | Sat. Transferrina > 45% (incomum na MASLD); RNM com ferro hepático grave; Genética |
| 3 | Hepatite Alcoólica | 0% | Cirrose, elevação de transaminases | Genética HFE positiva; Padrão de lesão sistêmica |
Não Esqueça: A presença de cirrose na Hemocromatose Hereditária eleva drasticamente o risco de Carcinoma Hepatocelular (CHC), que é a principal causa de mortalidade nestes pacientes. A depleção de ferro *não* reverte o risco de CHC quando a cirrose já está estabelecida.
Confirmação Diagnóstica e Estadiamento Sistêmico
O diagnóstico primário está confirmado. O foco agora é o estadiamento de outros órgãos-alvo:
Exames Complementares Imediatos (Ambulatoriais)
Conduta Terapêutica
Medidas Imediatas (Tempo 0)
Estratégia Definitiva: Protocolo de Flebotomia Terapêutica (AASLD/EASL)
A flebotomia é o tratamento de 1ª linha, superior aos quelantes de ferro, com impacto comprovado na sobrevida.
Fase 1: Indução (Depleção de Ferro)
| Parâmetro | Conduta | Observação |
|---|---|---|
| Volume | 400 a 500 mL por sessão | Equivale a remoção de 200-250 mg de ferro. |
| Frequência | 1 a 2 vezes por semana | Ajustar conforme tolerância hemodinâmica da paciente. |
| Monitorização | Hemograma antes de CADA sessão | Suspender sessão se Hb < 11 g/dL. |
| Reavaliação | Ferritina a cada 10-12 sessões | Não é necessário checar Sat. Transferrina nesta fase. |
| Alvo | Ferritina entre 50 e 100 ng/mL | Pode levar meses a mais de 1 ano com Ferritina inicial de 2.800. |
Fase 2: Manutenção
Medicações Adjuvantes / Alternativas
| Medicação | Dose | Via | Indicação | Observação |
|---|---|---|---|---|
| Deferasirox (Exjade®) | 14-28 mg/kg/dia | VO | 2ª Linha (Apenas se intolerância/CI à flebotomia) | CI: ClCr < 40 mL/min. Risco de toxicidade hepática e renal. Não indicado no momento. |
Avaliação de Resposta e Prognóstico
Disposição e Acompanhamento
*⚠️ AVISO: Esta análise é baseada em diretrizes gerais (EBM) e não substitui o julgamento clínico presencial.*
Diagnostico de Referencia (Gold Standard)
Hemocromatose hereditária (HFE C282Y homozigoto) com cirrose, diabetes e artropatia
- Sobrecarga de ferro secundária (hemotransfusões)
- Doença de Wilson
- Cirrose por NASH com sobrecarga de ferro
- Porfiria cutânea tarda