Lesão iatrogênica de via biliar principal (Strasberg E2 — secção do ducto hepático comum) pós-colecistectomia — Caso Especialista
Apresentação Clínica
Mulher de 48 anos, 5° PO de colecistectomia VLP, dor em HCD progressiva, icterícia, febre e drenagem de bile pelo orifício do dreno (>300mL/dia de bile). BT 8.5 (BD 6.5), FA 550, GGT 400. ColangioRM mostra interrupção completa do ducto hepático comum com coleção biliar na loja vesicular de 6cm. Sem dilatação das vias biliares intra-hepáticas à direita (sugerindo ligadura). Lesão Strasberg E2 (secção do ducto hepático comum). PA 110/70, FC 95, T 38.5°C.
Síntese do Caso
Mulher, 48 anos, no 5º PO de colecistectomia VLP, evoluindo com fístula biliar de alto débito (>300mL/dia), icterícia obstrutiva, febre e dor. A ColangioRM confirma lesão iatrogênica grave de via biliar (Strasberg E2: secção do ducto hepático comum) associada a biloma de 6cm na loja vesicular. Paciente hemodinamicamente estável, mas com critérios para sepse de foco biliar/peritonite localizada.
Hipótese Diagnóstica Principal
Lesão Iatrogênica de Via Biliar (Strasberg E2) com Biloma e Sepse Biliar — Confiança: 100%
Diagnósticos Diferenciais (Lesões Associadas)
Neste cenário, o foco não é descobrir a doença, mas sim mapear lesões concomitantes que mudam drasticamente a conduta:
| # | Diagnóstico Associado | Confiança | Achados que Favorecem | Achados que Afastam |
|---|---|---|---|---|
| 1 | Lesão de Artéria Hepática Direita (AHD) | 30% | Frequente em lesões altas (Strasberg E); proximidade anatômica no triângulo de Calot. | Ausência de necrose hepática aguda nos exames iniciais. |
| 2 | Lesão de Ducto Setorial Direito (Strasberg B/C) | 20% | Ausência de dilatação à direita relatada na RM (pode indicar anatomia aberrante isolada). | RM lauda como E2 (tronco principal). |
Não Esqueça: A ausência de dilatação à direita com suspeita de "ligadura" é paradoxal (ligaduras causam dilatação a montante; secções causam fístula e descompressão). É mandatório descartar lesão vascular associada (AHD), presente em até 30% das lesões biliares maiores, o que aumenta o risco de isquemia da via biliar remanescente e falha na reconstrução futura.
Confirmação Diagnóstica e Estadiamento
Exames Complementares (por ordem de prioridade)
Imediatos (beira-leito):
Imagem (Mandatório antes de qualquer cirurgia):
Laboratoriais:
Conduta Terapêutica (Sequência Temporal)
1. Medidas Imediatas (Tempo 0)
2. Medicações Iniciais (Primeiros 10-60 min)
Trata-se de uma infecção associada à assistência à saúde (IAAS - 5º PO). O esquema deve cobrir Gram-negativos entéricos e anaeróbios (Guidelines de Tokyo 2018 / Surviving Sepsis Campaign).
| Medicação | Dose | Via | Preparo/Diluição | Tempo | Observação |
|---|---|---|---|---|---|
| Piperacilina + Tazobactam (Tazocin®) | 4,5g 6/6h | IV | Diluir em 100mL SF 0,9% | Infusão estendida (3h) | 1ª Linha. Cobre Pseudomonas e anaeróbios. Ajustar se ClCr < 40. |
| *Alternativa:* Ceftriaxona (Rocefin®) + Metronidazol (Flagyl®) | CEF: 2g 1x/dia<br>MET: 500mg 8/8h | IV | CEF: 100mL SF 0,9%<br>MET: Pronto uso | 30 min (ambos) | 2ª Linha. Menor espectro para IAAS, mas aceitável se paciente estável. |
| Dipirona (Novalgina®) | 1g 6/6h | IV | Diluir em 10mL AD | Lento (3-5 min) | Analgesia e antitérmico. CI: Alergia prévia. |
| Ondansetrona (Vonau®, Zofran®) | 4mg 8/8h | IV | Direto ou 10mL AD | Lento | Resgate para náuseas. |
3. Estratégia Definitiva (Controle de Danos vs. Reconstrução)
A abordagem de lesões biliares maiores diagnosticadas após 72 horas do dano inicial exige uma estratégia em dois tempos (Step-up approach):
PASSO 1: Controle do Foco (Imediato)
PASSO 2: Reconstrução Definitiva (Tardio - 6 a 8 semanas)
4. Avaliação de Resposta
5. Alertas Críticos
Disposição e Acompanhamento
---
*⚠️ AVISO: Esta análise é baseada em diretrizes gerais (EBM - Tokyo Guidelines, Surviving Sepsis Campaign) e não substitui o julgamento clínico presencial.*
Diagnostico de Referencia (Gold Standard)
Lesão iatrogênica de via biliar principal (Strasberg E2 — secção do ducto hepático comum) pós-colecistectomia
- Fístula do coto cístico
- Biloma por lesão de ducto acessório
- Coledocolitíase residual