Maus-tratos infantis / abuso físico (NAI — Non-Accidental Injury) — notificação compulsória obrigatória — Caso Especialista
Apresentação Clínica
Menina de 18 meses, trazida pelo SAMU após suspeita da creche. Múltiplas equimoses em diferentes estágios de evolução (amareladas, esverdeadas e roxas) em tronco, nádegas e face interna de MMSS. Fratura de úmero esquerdo (achada no Rx — sem história de trauma). Rx de esqueleto: fratura metafisária de canto (bucket handle) em tíbia direita, fratura de costela posterior cicatrizada bilateral (4° e 5° costelas). Sem doença óssea metabólica (Ca, P, FA, PTH, vitamina D normais). Fundo de olho: hemorragias retinianas bilaterais. Mãe relata que criança cai muito. Padrasto convive com a criança. FR 30, FC 130, T 36.5°C.
Síntese do Caso
Menina de 18 meses, hemodinamicamente estável, apresentando lesões cutâneas em diferentes estágios de cicatrização em áreas não proeminentes, associadas a fraturas de altíssima especificidade para abuso (arcos costais posteriores e fratura metafisária de canto) e hemorragias retinianas. A história clínica de "quedas frequentes" é totalmente incompatível com a gravidade, cinemática e multiplicidade dos achados.
Hipótese Diagnóstica Principal
Trauma Não Acidental (TNA) / Síndrome da Criança Espancada com Trauma Craniano Abusivo (Shaken Baby Syndrome) — Confiança: 99%
1. Fraturas de arcos costais posteriores: Ocorrem pela compressão ântero-posterior vigorosa do tórax pelas mãos do agressor.
2. Fratura metafisária de canto (Bucket handle / Alça de balde): Causada por forças de tração e torção nos membros (puxões violentos).
3. Hemorragias retinianas bilaterais: Fortemente associadas ao mecanismo de aceleração-desaceleração rotacional (chacoalhamento).
4. Equimoses: A presença em áreas protegidas (tronco, nádegas, face interna dos braços) e em múltiplos estágios de evolução indica agressões de repetição, preenchendo a regra TEN-4-FACESp (lesões suspeitas em menores de 4 anos).
Diagnósticos Diferenciais
Ordenados do mais letal/urgente ao menos grave (método Rule Out):
| # | Diagnóstico | Confiança | Achados que Favorecem | Achados que Afastam |
|---|---|---|---|---|
| 1 | Trauma Acidental Grave | < 1% | Fraturas, equimoses. | História incompatível ("cai muito" não gera fratura de costela posterior ou hemorragia retiniana). |
| 2 | Coagulopatias (ex: PTI, Hemofilia) | 5% | Múltiplas equimoses. | Não explica as fraturas ósseas nem as hemorragias retinianas. |
| 3 | Osteogênese Imperfeita | 1% | Múltiplas fraturas. | Escleras normais, laboratório ósseo normal, padrão de fratura atípico para a doença. |
| 4 | Escorbuto / Raquitismo | < 1% | Alterações ósseas. | Laboratório (Ca, P, FA, Vit D) normal. |
Não Esqueça: Lesões Intra-abdominais Ocultas. O trauma abdominal fechado (laceração hepática, esplênica, perfuração de alça ou lesão pancreática) é a segunda maior causa de mortalidade no TNA. A ausência de sinais externos no abdome não descarta lesão interna grave.
Confirmação Diagnóstica
Critérios Clínicos
Exames Complementares (por ordem de prioridade)
Imediatos (beira-leito):
Imagem (Obrigatórios no contexto de TNA):
Laboratoriais:
Conduta Terapêutica
Medidas Imediatas (Tempo 0)
Medicações Iniciais (Primeiros 10-60 min)
Foco no controle álgico das fraturas.
| Medicação | Dose | Via | Preparo/Diluição | Tempo | Observação |
|---|---|---|---|---|---|
| Dipirona (Novalgina®) | 20 a 25 mg/kg | IV | Diluir em 10mL de SF 0,9% | Infundir em 10 min | 1ª linha para dor leve a moderada. 6/6h. |
| Morfina (Dimorf®) | 0,05 a 0,1 mg/kg | IV | Diluir 1mg em 9mL de SF 0,9% (0,1mg/mL) | Infundir em 5 min | Resgate para dor intensa (fraturas). Máx 2mg/dose inicial. |
| Ondansetrona (Vonau®) | 0,15 mg/kg | IV | Lenta, sem diluição obrigatória | Bolus lento | Profilaxia de êmese se uso de opioide. |
Estratégia Definitiva
1. Notificação Compulsória (Obrigação Legal):
2. Abordagem aos Cuidadores:
3. Avaliações Especializadas:
Avaliação de Resposta
Alertas Críticos
Disposição e Acompanhamento
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*⚠️ AVISO: Esta análise é baseada em diretrizes gerais (EBM) e não substitui o julgamento clínico presencial.*
Diagnostico de Referencia (Gold Standard)
Maus-tratos infantis / abuso físico (NAI — Non-Accidental Injury) — notificação compulsória obrigatória
- Osteogênese imperfeita
- Raquitismo
- Coagulopatia (hemofilia, von Willebrand)