Neurite óptica retrobulbar OE como apresentação de esclerose múltipla (critérios de McDonald preenchidos) — Caso Especialista
Apresentação Clínica
Mulher 32 anos, refere perda visual progressiva em OE há 5 dias, com dor à movimentação ocular. Episódio prévio de parestesias em MSD resolvido espontaneamente há 8 meses, não investigado. AV OD 20/20, OE 20/400. DPAR (defeito pupilar aferente relativo) presente OE. Fundoscopia: disco óptico OE com bordas borradas e hiperemia, sem edema significativo (neurite retrobulbar). OD normal. Campo visual: escotoma central OE. Teste de dessaturação de cores: acentuado OE. RNM de órbitas com gadolínio: realce e espessamento do nervo óptico OE. RNM encéfalo: 8 lesões periventriculares ovóides hiperintensas em T2/FLAIR, perpendiculares ao corpo caloso (dedos de Dawson), 2 com realce (ativas). LCR: bandas oligoclonais presentes. Solicita diagnóstico, critérios de McDonald e pulso de metilprednisolona.
Síntese do Caso
Paciente de 32 anos, sexo feminino, apresentando quadro agudo de neurite óptica unilateral à esquerda (dor à movimentação ocular, DPAR, escotoma central e queda acentuada da acuidade visual). Possui história prévia de déficit neurológico focal (parestesia em MSD) há 8 meses. A RNM evidencia lesões desmielinizantes típicas (dedos de Dawson) com captação de contraste simultânea a lesões inativas, e o LCR confirma inflamação do SNC com bandas oligoclonais.
Hipótese Diagnóstica Principal
Esclerose Múltipla (EM) - Forma Remitente-Recorrente (EMRR) em atividade — Confiança: 99%
Justificativa e Aplicação dos Critérios de McDonald (Revisão 2017):
O diagnóstico de Esclerose Múltipla exige a comprovação de Disseminação no Espaço (DIS) e Disseminação no Tempo (DIT), além da exclusão de diagnósticos alternativos. A paciente preenche ambos de forma redundante:
* Disseminação no Espaço (DIS): Requer $\ge$ 1 lesão em $\ge$ 2 de 4 áreas típicas (periventricular, cortical/juxtacortical, infratentorial, medula espinhal). O nervo óptico foi recentemente incorporado como 5ª topografia (MAGNIMS/McDonald 2024). A paciente possui lesões periventriculares (RNM) e acometimento do nervo óptico (clínica + RNM). Além disso, a história de parestesia em MSD sugere acometimento prévio medular cervical ou cortical.
* Disseminação no Tempo (DIT): Requer o aparecimento de novas lesões ao longo do tempo. A paciente preenche este critério de três formas distintas:
1. *Clínica:* Dois surtos clínicos separados por 8 meses (parestesia MSD e agora neurite óptica).
2. *Imagem:* Presença simultânea de lesões captantes de gadolínio (ativas) e não captantes (inativas) na RNM de encéfalo.
3. *LCR:* A presença de bandas oligoclonais (BOCs) no LCR substitui o critério de DIT em pacientes com Síndrome Clínica Isolada (CIS), consolidando o diagnóstico.
Diagnósticos Diferenciais
| # | Diagnóstico | Confiança | Achados que Favorecem | Achados que Afastam |
|---|---|---|---|---|
| 1 | NMOSD (Anti-AQP4) | Baixa | Neurite óptica aguda, sexo feminino. | Lesões periventriculares ovóides (dedos de Dawson) são típicas de EM, não de NMOSD. Ausência de neurite óptica bilateral/grave simultânea. |
| 2 | MOGAD (Anti-MOG) | Baixa | Neurite óptica com edema de papila (embora leve no caso). | Padrão de lesões na RNM de encéfalo é clássico para EM. |
| 3 | Neurossífilis | Muito Baixa | Neurite óptica, bandas oligoclonais (podem ocorrer em infecções). | Padrão de imagem estritamente desmielinizante; história de surto-remissão prévia. |
Não Esqueça: O espectro da Neuromielite Óptica (NMOSD) é o principal "red flag". Terapias modificadoras de doença (DMTs) usadas na EM (como beta-interferonas, fingolimode e natalizumabe) podem exacerbar gravemente a NMOSD. A coleta de anticorpos séricos é mandatória antes de definir a terapia de manutenção.
Confirmação Diagnóstica
Critérios Clínicos
Exames Complementares
Imediatos (beira-leito):
Laboratoriais:
Imagem:
Conduta Terapêutica
Medidas Imediatas (Tempo 0)
Medicações Iniciais (Primeiros 10-60 min)
O tratamento do surto agudo (neurite óptica) visa acelerar a recuperação visual e reduzir a inflamação do nervo óptico.
| Medicação | Dose | Via | Preparo/Diluição | Tempo | Observação |
|---|---|---|---|---|---|
| Metilprednisolona (Solu-Medrol®) | 1 g | IV | Diluir 1g em 250 mL ou 500 mL de SF 0,9% ou SG 5% | Infundir em 2 a 3 horas | 1x/dia por 3 a 5 dias. Uso de bomba de infusão preferencial. |
| Omeprazol ou Pantoprazol | 40 mg | IV/VO | Bolus lento (se IV) | 1x/dia | Proteção gástrica durante o pulso. |
| Albendazol | 400 mg | VO | Comprimido | 1x/dia por 3 dias | Profilaxia para estrongiloidíase disseminada (endêmica no Brasil) antes do pulso. |
Estratégia Definitiva
Avaliação de Resposta
Alertas Críticos
Disposição e Acompanhamento
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*⚠️ AVISO: Esta análise é baseada em diretrizes gerais (EBM) e não substitui o julgamento clínico presencial.*
Diagnostico de Referencia (Gold Standard)
Neurite óptica retrobulbar OE como apresentação de esclerose múltipla (critérios de McDonald preenchidos)
- Neuromielite óptica (Devic/AQP4)
- Doença associada a MOG
- Neurite óptica infecciosa
- Sarcoidose neuro-oftálmica